Valor Econômico – Criptoativo agora desperta interesse de famílias ricas

  • 19/08/2021
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A fama dos criptoativos chegou ao universo das famílias mais endinheiradas. Sob demanda dos investidores, gestores de fortunas têm estudado o tema e já há quem inclua essa classe na alocação de portfólios. A procura é mais natural entre as novas gerações, que estão em processo de sucessão do patrimônio familiar, mas há também perfis mais conservadores querendo testar esse tipo de risco.

Enquanto a escola tradicional de gestão de patrimônio busca uma distribuição do risco baseada em fundamentos macro, microeconônomicos e setoriais, para os criptoativos é a velha abordagem técnica que tem sido utilizada.

Em geral, são os mais jovens que provocam as conversas e o gestor se prepara para atender as novas gerações

Um mapeamento recente divulgado pela CFA Institute Research Foundation tentou trazer uma luz sobre o potencial impacto dos criptoativos nas carteiras dos investidores. Matt Hougan e David Lawant compilaram um teste feito pela Bitwise Asset Management, que atribuiu diferentes pesos do bitcoin, 1%, 2,5% e 5%, a um portfólio tradicional (60% ações, 40% renda fixa, com rebalanceamento trimestral). O resultado é que há uma melhora significativa na rentabilidade da carteira com acréscimos pequenos, enquanto o risco pouco aumentou, levando-se em conta o índice de Sharpe, que faz esse tipo de ponderação.

O levantamento limitou-se ao bitcoin porque é o ativo com maior histórico. Mas seria razoável assumir que os resultados servem de premissa para o futuro?

“É uma classe de ativos que está surgindo, mas ninguém sabe no futuro o que vai sobreviver. Pode valer a pena por causa dos altos retornos, mas a gente não quer simplesmente comprar bitcoin ou ethereum, e deixar o cliente exposto a uma montanha russa”, diz Luiz Pacheco, sócio da Brainvest.

Com várias plataformas negociando criptoativos por 24 horas (as chamadas “exchanges”), trata-se de um mercado muito ineficiente é o antigo modelo estatístico que tem funcionado para esse mercado, acrescenta Pacheco. Ele diz ter se surpreendido com a quantidade de fundos dedicados e tem preferido aqueles com perfil de “trade”, que fazem a combinação de criptos, ficam comprados ou vendidos e também usam derivativos. “Para alguns gestores, quanto mais volátil, melhor. Em maio, quando o bitcoin caiu 30%, teve fundo que ganhou 20%. Começamos a olhar para fundos que conseguem navegar nesse mercado maluco.”

Em geral, são os investidores mais jovens, que nasceram digitais e estão acostumados com as transações instantâneas que provocam esse tipo de conversa. “Na hora em que o dinheiro mudar de mãos, o ‘advisor’ tem que ter alternativas para que a nova geração esteja confortável com aquilo em que está investindo”, diz Pacheco.

A recomendação tem sido alocar até 2,5% do portfólio. “Como a volatilidade é alta, não dá para investir muito mais do que isso.”

Segmentos correlatos, ligados ao “blockchain” (a tecnologia por trás do bitcoin) ou companhias que desenvolvem softwares para processamento de ativos digitais são outras estratégias avaliadas na composição da carteira.

Como as transações são descentralizadas, ele acrescenta haver preocupação adicional com a custódia dos criptoativos, o que não ocorre num fundo de ações no Brasil, em que a guarda fica na B3. A Coinbase, que fez IPO na Nasdaq neste ano, é uma das empresas que rapidamente se desenvolveram para prestar esse tipo de serviço, fazendo o link com diversas exchanges.

Outro desafio, alerta Pacheco, é não cair naquilo que o mercado já chama de “shit coins”, em práticas de “pump and dump” (influenciadores com “dicas” para inflar artificialmente os preços) ou esquemas Ponzi e de pirâmides financeiras associados ao marketing da inovação dos criptoativos. “Tem muita gente famosa falando que tem um coin token novo que vai sair e revolucionar o mercado. Tem que evitar esse tipo de coisa”, diz.

Promessas de ganhos de 5%, 10% ao mês invariavelmente machucam muitos incautos, que querem o lucro rápido e não pensam no que pode dar errado. Recente estatística divulgada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostrou que entre pessoas que foram vítimas de fraude, 43,3% afirmaram que os esquemas envolviam o mercado de criptoativos.

Dentro do Itaú, Fernando Beyruti, CEO do banco nos Estados Unidos e responsável pelo private banking internacional, diz que tem dado acesso ao investidor aos criptoativos via fundos de índice no Brasil e no exterior, mas a classe ainda não entra no desenho dos portfólios. A área estuda as alternativas que têm o blockchain por trás, mas ainda falta clareza se os ativos digitais vão ganhar status de reserva de valor ou ser usados como meio de pagamento.

“Não há ainda convicção na classe para recomendar, mas o cliente pede e tem muito gestor internacional que ajuda a ter um pezinho lá”, diz. “Entrar numa alocação é muito difícil porque qualquer percentual pode trazer volatilidade enorme para a carteira.”

O sócio de uma gestora especializada em portfólios de investimentos no exterior também vê as famílias de grande patrimônio mais interessadas nos criptoativos. Como investidor de tecnologia, ele acompanha esse segmento de perto há alguns anos e diz haver gestores bons especializados em ativos digitais. Mas como a discussão sobre o bitcoin ainda é binária, o cuidado é que qualquer exposição não tenha o tamanho errado.

“O bitcoin precisa existir para outros criptoativos existirem. Analisar o quanto vale e se vai existir, tudo isso. Ninguém tem a menor ideia. Quais investimentos vão sobreviver no mundo cripto se o bitcoin virar reserva de valor?”, questiona. “Mas qualquer análise de risco e retorno mostra que, sim, vale a pena ter um pouco.” Para o gestor, colocar 0,5% ou 1% na carteira pode fazer diferença no portfólio do gestor de patrimônio, escolhendo os melhores fundos.

Num cenário inflacionário global, com muito dinheiro impresso, o bitcoin teria chance de valer mais. O descontrole dos índices de custo de vida seria, contudo, um quadro ruim para qualquer portfólio que perderia valor em termos reais.

Carlos Belchior, estrategista da gestora de patrimônio G5, diz que a curiosidade do investidor em geral aumenta quando um criptoativo sobe muito ou testa certos níveis técnicos. Embora não veja uma demanda particular entre os seus clientes, o gestor diz notar certa ansiedade em relação ao desconhecido, de “perder o bonde”.

Ele afirma ver similaridade desse comportamento com a bolha da Nasdaq no começo dos anos 2000, quando a internet dava seus primeiros passos. Havia então uma leitura de que a velha economia seria destruída e a nova dominaria. “É difícil indicar um ativo que não tem modelagem, não tem valor intrínseco, e que num fim de semana pode cair 50%”, afirma Belchior. “A gestora tem um dever fiduciário, de preservação do patrimônio, não passa pela nossa cabeça indicar como investimento.”

O especialista ressalva que, se algum ativo tem comprador no dia seguinte, ele tem valor, é preciso respeitar, como política, religião ou futebol. Mas ele diz ver buracos na história do bitcoin, um código inventado por uma pessoa, que ninguém sabe quem é e que por definição é limitado. “O próprio blockchain, toda a certificação ocorre dentro de um anonimato. Com o passar do tempo, surgiram outras criptos e criptos com função.”

Como exemplo, Belchior cita que a execução de contratos inteligentes com a moeda virtual ether não precisa ser na rede da ethereum. “Não parece ter um valor em si, mas se tiver algum uso proprietário você acaba caindo dentro de um método tradicional de avaliação de empresa, como um equity de companhia de Software as a Service.”

Após se unir ao Mercado Bitcoin, a ParMais identificou grande curiosidade dos investidores pelos criptoativos, diz Annalisa Blando, fundadora e CEO da empresa de planejamento financeiro que tem um braço de gestão digital.

Se dez anos atrás, quando criou a companhia, o investidor tinha recursos na caderneta no “bancão” e nem conhecia as corretoras, hoje já há um certo grau de amadurecimento que acompanhou a trajetória de queda de juros, afirma.

Anos atrás estava na moda olhar o reflorestamento como classe de ativos, objetos de arte, além de imóveis, a grande paixão do brasileiro, a compra de terras, ele queria ver a propriedade.”

O interesse pela bolsa é um fenômeno relativamente recente, cita. Agora, com os criptoativos ganhando o mundo e até gestoras tradicionais como a Verde testando essas águas, a executiva diz ser natural que o investidor também queira entrar nesse jogo. “Muita gente tem medo, a análise é subjetiva, mas tem apetite grande.”

Para aqueles que querem investir em criptoativos, Annalisa sugere ter uma caixinha para essa classe, desde que tenham capacidade para isso. “É parte daquele patrimônio excedente, com visão de longo prazo, que quer descorrelacionar [de outros ativos] e que pode ter potencial de ganho maior que imóveis, por exemplo, e menos risco do que o reflorestamento, que tem que esperar 30 anos, depende da formiga, vender a madeira e às vezes o transporte é mais caro que a madeira.”

Confira a matéria na íntegra: https://valor.globo.com/financas/noticia/2021/08/19/criptoativo-agora-desperta-interesse-de-familias-ricas.ghtml

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