Errando, errando e errando….

  • 16/06/2014
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Planejamento financeiro – repetindo os mesmos erros

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O presidente Lula, em duas aparições públicas recentes, defendeu os pontos que acredita devam ser perseguidos pelo governo Dilma para retomar o crescimento econômico: aumento do crédito ao consumo e dos gastos sociais do governo. Se isto for para valer e formar a base de sustentação da política econômica do PT para o próximo mandato devemos, nós brasileiros, colocar as barbas de molho. A insistência na utilização destes instrumentos, que foram importantes nos dois mandatos do presidente Lula, vai aprofundar os problemas que enfrentamos na economia e que tem tirado parte importante do apoio popular ao governo.

As manifestações de Lula – e que certamente representam o pensamento de parcela importante do partido – mostram que, mesmo após um debate rico e republicano sobre o esgotamento do modelo de sucesso do período 2004 a 2010, o PT não entendeu o que ocorreu, nos últimos quatro anos, nas condições de contorno de nossa economia. Não temos mais as mesmas condições externas que prevaleceram naquele período e vários gargalos apareceram de forma intensa no tecido econômico. O crédito ao consumo é um dos melhores exemplos disto. Ele, que foi um dos principais elementos do sucesso dos anos Lula, está hoje no ponto máximo permitido pelo orçamento doméstico da maior parte da chamada nova classe média.

Qualquer tentativa por parte do governo de aumentá-lo pela utilização de estímulos externos ao mercado financeiro criará uma crise de inadimplência séria. Com o Big Brother que representa o sistema Serasa de informações sobre o crédito pessoal denunciando os maus pagadores, um eventual sucesso inicial terá vida muito curta. E o brasileiro dá sinais de que entendeu esta armadilha, como mostram a fraqueza dos indicadores de demanda de crédito dos últimos três anos. O crescimento do crédito ao consumo terá que acompanhar o aumento real da renda do brasileiro nos próximos anos.

Crédito ao consumo está no máximo permitido pelo orçamento doméstico da maior parte da classe média

Segundo estatísticas do Banco Central, os gastos com pagamento de juros e amortizações do principal da dívida chegavam a 15% da renda pessoal em 2005. Em 2010 eles chegaram a consumir mais de 32% do orçamento doméstico do brasileiro médio e, recentemente, voltou para menos de 30%. Neste intervalo a inadimplência cresceu muito, o que obrigou os devedores a se ajustarem via redução de gastos, inclusive em itens de maior importância na sua vida. Esse movimento me parece indicar que chegamos ao limite do endividamento e que um comprometimento maior da renda pessoal não será estável.

O outro instrumento sugerido por Lula – expansão dos gastos sociais do governo – também não terá o mesmo sucesso dos anos dourados que ficaram para trás. E afirmo isto não por razões ideológicas ou por uma leitura catastrofista da situação fiscal brasileira atual. As causas de meu pessimismo com esta proposta de Lula são essencialmente econômicas e dentro do arcabouço teórico keynesiano corretamente interpretado: baixo multiplicador na atividade econômica e elemento de deterioração das expectativa das empresas.

Peça fundamental na análise econômica, o multiplicador relaciona os efeitos de medidas de estímulos tomadas pelo governo – como gastos fiscais adicionais proposto por Lula – sobre a atividade econômica. O multiplicador pode ser visto sob duas óticas: uma considera o impacto real dos estímulos fiscais sobre a demanda privada; a outra trabalha com as reações de maiores gastos sob as expectativas dos agentes econômicos, principalmente os empresários.

No caso dos gastos correntes do governo – sejam voltados para o consumo, sejam aplicados na área social – o multiplicador é muito baixo e, por isto, incapaz de acelerar o crescimento atual. Os limitadores que amarram a economia brasileira neste período pós-boom dos anos Lula são mais complexos para serem superados via aumento dos gastos do governo. Já discutimos neste espaço – por várias vezes – que os problemas da economia brasileira estão relacionados principalmente a questões ligadas ao aumento da oferta de bens e serviços e não ao gasto das pessoas.

Além da baixa eficiência deste instrumento como estimulador do crescimento, uma maior pressão sobre o orçamento vai acarretar outro efeito negativo sobre a conjuntura econômica futura: o aumento da desconfiança dos empresários em um momento em que os investimentos privados representam a principal saída para a estagnação que tomou conta da economia brasileira nos últimos anos.

Sempre esperei que, diante do intenso debate econômico dos últimos anos, o governo e o PT entendessem as mudanças na situação de contorno da economia brasileira e buscassem construir uma política econômica nova. Confesso ao leitor do Valor que, ao ler as últimas manifestações do ex-presidente Lula, senti uma grande decepção. Esperava do homem político Lula, que em 2002 entendeu a necessidade de deixar de lado a agenda econômica defendida pelo PT por mais de duas décadas, mais do que a simples repetição de instrumentos que uma nova realidade econômica no Brasil e no mundo tornaram ineficientes. Um novo mandato da presidente Dilma Rousseff, sob o signo do “velho” na condução da economia, vai trazer uma piora séria nos limitadores que amarram nosso crescimento econômico.

Fonte: Jornal Valor Econômico

 

Errando, errando e errando…. por Luiz Carlos Mendonça de Barros – Valor Econômico – 16.06.2014

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