• 19/11/2018

DC – O estilo e as ambições de Paulo Guedes, o futuro superministro da Economia de Jair Bolsonaro

Futuro “superministro” da Economia de Jair Bolsonaro (PSL) – com a fusão das pastas de Fazenda, Planejamento e Indústria –, Paulo Guedes, 69 anos, literalmente nasceu entre o público e o privado. Filho de uma servidora pública e de um vendedor de materiais escolares, o economista carioca concretizará a partir de 1º de janeiro um enlace com o governo federal após décadas de flertes com o poder. Entre os frutos esperados dessa união estável, de pelo menos quatro anos, estão privatizações, reformas estruturais e retomada do crescimento embaladas em um pensamento liberal.

Formado em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com mestrado na Fundação Getúlio Vargas, foi no doutorado na Universidade de Chicago (EUA) que ele abraçou a cartilha liberal. Foi estudar nos Estados Unidos aos 25 anos, em 1974, e chegou como keynesiano – termo associado aos adeptos das concepções do britânico John Maynard Keynes, de intervenção do Estado na economia. Com o PhD na instituição considerada o templo do pensamento liberal, Guedes concluiu o curso como ultraliberal e defensor do livre mercado.

De volta ao Brasil, o economista tinha o desejo de implantar as novas ideias no governo, mas não encontrou brechas em um período de ditadura militar, com forte mentalidade estatizante. Nos anos seguintes, foi professor de macroeconomia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), na FGV e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio. Durante a ditadura militar chilena, chegou a dar aulas por um semestre na Universidade do Chile, mas retornou ao Brasil depois que a polícia política de Augusto Pinochet revistou sua sala e um terremoto assustou seus familiares em Santiago.

Mas embora a educação sempre estivesse presente na vida do futuro ministro, o casamento perfeito veio com o mercado financeiro. Em 1983 foi um dos fundadores da corretora Pactual DTVM, que mais tarde se transformaria no Banco Pactual. Com muito conhecimento, habilidade e personalidade forte, não parou mais de crescer e fez fortuna neste nicho.

Hoje ele circula em meios intelectuais e empresariais e tem trajetória marcada por iniciativas de criação de negócios e das chamadas think tanks – instituições que se dedicam a produzir e difundir informações sobre temas específicos. Guedes é um dos fundadores do Instituto Millenium, centro de pensamento voltado à disseminação de ideias liberais.

Por três momentos, antes de 2018, ele esteve perto da política. Em 1984, quando Delfim Netto era ministro do Planejamento, Guedes foi sondado para assumir uma diretoria do Banco Central, mas recusou o convite. Pouco tempo depois, com Tancredo Neves eleito, o nome dele novamente foi sugerido para uma diretoria, mas mais uma vez não aceitou. Em ambos os casos, houve divergências com as ideias e a condução das políticas econômicas vigentes. Já em 1989, o economista contribuiu para a elaboração do plano de governo do então candidato à Presidência da República Guilherme Afif Domingos, pelo então PL, atual PR.

Especialistas avaliam que currículo e capacidade técnica o credenciam

A área acadêmica da economia e o mercado financeiro veem com boa expectativa o estilo e as ambições de Paulo Guedes para quando assumir o Ministério da Economia. É praticamente consenso entre os especialistas a avaliação de que a robustez do currículo e a capacidade técnica dele o credenciam a implantar, com sucesso, uma agenda mais liberal no país, no que é visto por eles como essencial.

A política macroeconômica de Guedes mantém o tripé de meta de inflação, rigor para atingir a meta fiscal e câmbio flutuante, e foca o médio e longo prazo em reformas para que o Estado funcione melhor, em o máximo de privatizações possível e em abertura do mercado internacional.

A experiência dos países asiáticos, como a Coreia do Sul, mostra que eles tiveram uma política não muito diferente do que se adotou no Brasil desde a época de Getúlio Vargas, de desenvolvimentismo, mas com algumas sutilezas.

– Eles chegaram num certo momento que se abriram ao mercado internacional e liberalizaram a economia, e o Brasil não fez isso. Se essa tentativa agora der certo, sobreviver, seria um caminho que parece promissor – analisa o mestre em Desenvolvimento Econômico e doutor em Economia pela Universidade Vanderbilt (EUA), João Sanson.

Avaliação semelhante faz Alexandre Amorim, gestor de investimentos da Par Mais, empresa de investimentos financeiros, que explica que o mercado vê como necessário para o Brasil essa virada à direita:

– O Paulo Guedes é muito ligado à economia real, sabe que precisa estimular as empresas, cortar custos. A economia tem uma coisa muito interessante que é o mercado antecipar os fatos. Começa a melhorar antes da economia real melhorar de fato. O Brasil viveu anos difíceis em termos de investimento, tinha quebra de contrato, instabilidade jurídica, política. Isso deve mudar e isso gera confiança.

Os números escancaram a situação alarmante das contas públicas no país e nos Estados.

O relatório do Tesouro Nacional divulgado este mês mostrou que 16 Estados e o Distrito Federal fecharam 2017 com gasto de pessoal acima do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal – no pior cenário, o comprometimento chega a 86% no Rio Grande do Norte; em Santa Catarina o balanço aponta 61%. Economista do Clube FII (site especializado em fundos imobiliários) e professor universitário, Thiago Otuki comenta que o problema está longe de ser novo.

– Se tinha alguma dúvida do ponto de vista teórico, acadêmico ou ideológico (da necessidade de reformas na economia), os números estão aí. Há problemas nos Estados, o governo federal está com um déficit gigantesco, da ordem de R$ 150 bilhões, que não é sustentável. O desafio é conduzir essa transição de modelo econômico protegendo os grupos sociais mais vulneráveis – pondera.

Antecessores de Guedes à frente da economia nacional, como os ex-ministros da Fazenda Henrique Meirelles e Guido Mantega, tentaram, em menor ou maior grau, emplacar pautas reformistas ou com viés mais liberal nos últimos anos. Mesmo com mais experiência e trânsito político, porém, esbarraram na resistência de deputados e senadores e viram seus governos sucumbirem a denúncias e escândalos de corrupção. Embora deva colher apoio popular e dos próprios eleitos com a onda por mudança que levou Bolsonaro ao Planalto e da promessa de uma gestão sem toma lá, dá cá, é justamente na falta de traquejo político que reside uma das principais ressalvas em relação a Guedes.

– O Paulo Guedes não é de personalidade fácil, talvez assim como Boslonaro, tenha seus rompantes, mas é o jeito dele mesmo. Meu receio pessoal é dele ter muitas ideias, mas não ter esse trato político. O Congresso Nacional exige traquejo – opina Alexandre Amorim.

Falta de traquejo no discurso político

As preocupações com o estilo pessoal de Paulo Guedes, de pouco tato e clareza dos caminhos políticos, se mostraram mais do que justificadas logo nas primeiras entrevistas à imprensa, mesmo antes da vitória de Bolsonaro.

Ainda em setembro, a Folha de S. Paulo divulgou que, em uma reunião com uma empresa especialista em gestão de grandes fortunas, o economista citou a intenção de recriar um imposto sobre movimentação financeira nos moldes da CPMF. Com a repercussão negativa, o próprio Bolsonaro usou as redes sociais para reafirmar que seu governo não aumentará a carga tributária. Depois, Guedes também desmentiu a informação e houve um alinhamento de discurso para evitar novas polêmicas – o que incluiu uma espécie de lei do silêncio imposta ao economista durante as eleições.

Porém passado o segundo turno, ainda no domingo da votação, Paulo Guedes voltou a ser ele mesmo. Em entrevista no Rio de Janeiro, declarou que a Argentina e o Mercosul não serão prioridade na futura gestão, o que gerou surpresa e desconcerto nos membros do bloco econômico. Além disso, respondeu com modo ríspido uma jornalista argentina.

– O Mercosul não é prioridade. Não, não é prioridade. Tá certo? É isso que você quer ouvir? Queria ouvir isso? Você tá vendo que tem um estilo que combina com o do presidente, né? Porque a gente fala a verdade, a gente não tá preocupado em te agradar – afirmou.

Diálogo truncado com o Congresso

Quando a missão passou a incluir sinais diretos à Câmara dos Deputados e ao Senado, de onde precisam vir as aprovações a reformas pensadas por ele, Guedes também não se saiu muito bem. Questionado sobre a possibilidade de votar a reforma da Previdência ainda neste ano, ele pediu uma “prensa” no Congresso. Novamente, foi necessário colocar panos quentes na situação. Bolsonaro argumentou que a “inexperiência” fez o economista pedir a prensa nos congressistas e o próprio Guedes se desculpou pela frase, dizendo que se “expressou mal”.

Equipe econômica com o perfil do comandante

Guedes também já vai dando sua cara à equipe do “superministério” da Economia. Na quinta-feira, anunciou o executivo do Banco Santander Roberto Campos Neto como indicado para comandar o Banco Central no governo Bolsonaro. A permanência de Mansueto de Almeida como secretário do Tesouro também foi ratificada pela equipe. Na segunda, já havia divulgado que Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda no segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), aceitou o convide para assumir o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O nome de Campos Neto já era cogitado. Próximo a Guedes, o atualmente responsável pela tesouraria do Santander foi visto circulando no centro de transição, em Brasília, na semana passada. Ele é neto do economista Roberto Campos, que foi ministro do Planejamento e Coordenação Econômica durante a ditadura, no governo Castelo Branco, e é fortemente identificado com o pensamento liberal e defensor do Estado mínimo no país.

Presidente eleito ratifica o nome de Levy

Já a escolha de Levy para o BNDES gerou reações de surpresa por um lado e de naturalidade por outro. A estranheza se deu por ele já ter sido ministro de Dilma, a quem Bolsonaro sempre foi ferrenho opositor e crítico. O presidente eleito inclusive disse que mesmo com o passado com o PT e com Sérgio Cabral (de quem Levy foi secretário no Rio de Janeiro), nada havia contra a “conduta profissional” dele. Declarou, ainda, que Paulo Guedes é quem estava “bancando” e tinha então seu endosso.

O perfil do ex-ministro, no entanto, é alinhado com o da equipe econômica que assumirá em janeiro. Também doutor pela Universidade de Chicago, templo do ultraliberalismo econômico do qual Guedes é egresso, Levy adotou um programa de austeridade fiscal e desfez uma série de desonerações concedidas no primeiro mandato de Dilma. Os benefícios incentivavam desde a compra de veículos à redução do preço dos combustíveis.

Ele também endureceu as regras de pagamento do abono salarial para os trabalhadores de carteira assinada que ganham até dois salários mínimos. O então ministro ainda tentou, sem sucesso, reter até 30% dos recursos do Sistema S, que financia programas de aprendizagem e formação técnica, para cobrir o déficit fiscal de 2016.

Quem é Paulo Guedes

Nome: Paulo Roberto Nunes Guedes
Idade: 69 anos
Naturalidade: Rio de Janeiro (RJ)
Profissão: economista
— Graduado em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
— Mestre na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
— Doutor pela Universidade de Chicago
— Fundador da gestora Pactual, hoje Banco Pactual
— Fundador da BR Investimentos, que se fundiu com a Mercatto e com a Trapezus, dando origem à Bozano Investimentos
— Foi diretor-técnico, sócio e docente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC)
— Sócio-fundador e diretor executivo da JGP Gestão de Recursos
— Fundador do think tank brasileiro Instituto Millenium
— Foi docente em regime parcial na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), na FGV e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) no Rio de Janeiro. Durante a ditadura militar chilena, aceitou um cadeira de docência em tempo integral Universidade do Chile
— Foi colunista dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo e das revistas Época e Exame

 

Confira a matéria na íntegra: http://dc.clicrbs.com.br/sc/noticias/noticia/2018/11/o-estilo-e-as-ambicoes-de-paulo-guedes-o-futuro-superministro-da-economia-de-jair-bolsonaro-10644859.html

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