Carta do gestor: dezembro 2020

  • 16/01/2021
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2020 foi o ano dos eventos imprevisíveis

A virada de ano é sempre uma data esperada e comemorada. Mas nunca se viu uma expectativa tão grande como nesta virada de 2020 para 2021. Na prática, a vida continua a mesma, mas a expectativa por uma mudança de ciclo e início de um novo período fez com que todo mundo quisesse logo deixar 2020 no passado.

Nossa vida é feita de eventos que, em geral, podem ser previstos. Na estatística, estudamos que a maioria das coisas ocorre dentro de uma curva de probabilidade e que, eventos inesperados ficam nas pontas das caudas, com probabilidade muito baixa de ocorrência mas, por outro lado, com efeitos imprevisíveis.

E o ano de 2020 foi o ano dos eventos imprevisíveis. Novos vírus são descobertos com uma certa frequência, mas nenhum deles – até então – teve a força de paralisar o mundo, literalmente. E então, este “evento de cauda” desencadeou uma série de outros eventos inesperados e improváveis.

atual situação econômica do Brasil i casulo de uma borboleta prestes a eclodir

Foi um ano desgastante para as pessoas

De início, não se sabia quais seriam os resultados de uma crise de oferta e demanda, ou seja, produção parada e consumidores em casa, sem consumir. Os meses de março e abril foram de uma intensidade tão grande nos mercados que cada dia parecia uma semana. Previsões catastróficas e a sensação de ruptura na economia global motivaram reações exacerbadas de governos e bancos centrais.

No Brasil, iniciamos o ano com a taxa SELIC “historicamente baixa” de 4,25%. Nunca imaginaríamos que, em poucos meses, essa mesma taxa chegaria a 2%. A inflação, que também era estruturalmente baixa, ficou alguns meses negativa e fechou o primeiro semestre muito próxima a zero. A necessidade por liquidez fez os fundos de renda fixa DI terem volatilidade e reportarem prejuízos pela primeira vez na história. Nem mesmo os títulos públicos indexados à SELIC escaparam dessa. Talvez o cúmulo destes “eventos inimagináveis” tenha sido o barril do petróleo sendo negociado a preços negativos, ou seja, os investidores pagavam para alguém ficar com os barris – isso porque não havia mais capacidade de estocagem.

Confira a nossa análise semanal do cenário macroeconômico com foco nos investimentos, por Alexandre Amorim, CGA.

Os estímulos monetários, programas de manutenção de emprego e crédito deram resultado. Mas o cotidiano das pessoas não era o mesmo e tanto a necessidade de consumo como a forma de consumir mudaram. Enquanto setores continuavam fechados (serviços, lazer, turismo), outros setores tiveram uma demanda inesperada, como alimentos, materiais de construção e aluguéis de temporada – já que se trabalhava de qualquer lugar.

O resultado final, ao menos para a economia, não foi tão ruim quanto se imaginava no início. Mas para as pessoas, foi um ano desgastante demais. Por isso, a expectativa é tão grande por um novo ciclo.

No fim do ano, com a entrega do resultado das vacinas e início de campanhas de vacinação, o humor começou a melhorar significativamente. A eleição de Joe Biden nos EUA trouxe um ânimo adicional aos tomadores de risco, pois se espera que o governo do Democrata tenha menos ruídos para a economia mundial, com uma expectativa ainda mais positiva para os emergentes.

Mas os desafios estão longe de acabar. A expectativa de estarmos próximos ao fim da pandemia faz as pessoas relaxarem e, com isso, estamos vivenciando o pico de contágios no mundo. No Brasil, o ano de 2020 trouxe de volta uma série de problemas políticos e decisões contestáveis nos três poderes. O congresso praticamente paralisou a agenda de reformas e fez muito pouco além do que o estritamente necessário.

Portanto, a expectativa para 2021 vai além de um novo ciclo. Há muito o que ser feito no país e a agenda de reformas precisa finalmente prosperar. Vamos aguardar com esperança que o Brasil tome rumo, por menor que seja, para não ficarmos mais uma vez vendo, pela janela, o bonde da história passar.

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