Carta do gestor: dezembro/2019

  • 17/01/2020
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Atual situação econômica do Brasil


Quem, como eu, já teve uma conta corrente na qual o dinheiro chegava a render 2%, literalmente, via o seu dinheiro crescer da noite para o dia. Sim, não precisávamos nem investir. Automaticamente nosso saldo ia para o overnight e no outro dia o saldo estava significativamente maior. Claro que isso era uma ilusão, já que nesse período a inflação chegou a 2.500% ao ano.

Mesmo depois da estabilização da inflação, continuamos convivendo com as taxas de juros altas, que funcionavam como atrativo de capital estrangeiro ao país. Nas últimas décadas começamos um pouco mais “normais”, mas depois de todos os problemas econômicos no começo da década de 2010, voltamos a ter uma taxa SELIC de quase 15% ao ano.

Taxa de juros alta causa uma série de distorções.

Ganhar com juros desestimula empresários a correr riscos aplicando na economia real. Juro alto também funciona como uma tremenda forma de transferência de renda, de tomadores (pessoas que precisam recorrer ao crédito) aos poupadores (pessoas que conseguem guardar dinheiro). Na prática brasileira, transferência de renda de pobres para ricos.

O juro alto também deixou o investidor preguiçoso. Não era necessário avaliar o investimento, instituição financeira, nem mesmo era preciso pensar em objetivos, perfil, horizonte de tempo.

Era só aplicar e ganhar.

Mas agora a realidade é outra.

Encerramos o ano de 2019 com a SELIC a 4,5% ao ano, frustrando quem ganhava dinheiro fácil com os juros altos, mas alegrando as empresas que precisam de capital para crescer.

Portanto, estamos vivendo um momento importantíssimo de transição. Não temos mais o governo sendo o principal protagonista do mercado crédito – que frequentemente era subsidiado e direcionado – e no lugar disso as próprias empresas estão indo a mercado captar recursos. E a taxas ainda melhores do que aquelas subsidiadas de pouco tempo atrás. Por isso vimos, no ano de 2019, um crescimento acelerado na emissão de debentures e empresas trocando dívidas emitidas no exterior por emissões internas, em real.

Isso, de certa forma, justifica a grande saída de capitais estrangeiros vista por aqui no ano passado. Saiu o dinheiro dos investidores de curto prazo que vinham aproveitar nossas taxas de juros altas (o chamado carry trade). Por outro lado, juros baixos tornam atrativos os investimentos de longo prazo, que são muito melhores para a economia (o chamado investimento estrangeiro direto). Portanto a troca foi positiva.

Mas com o cenário de juros baixos, o que muda nos investimentos financeiros?

A primeira grande mudança é que os investidores, de fato, precisarão dar atenção ao seu perfil de investimentos.

Era muito comum se fazer apenas uma carteira de investimentos, com objetivo de longo prazo e, no meio do caminho, fazer resgates para compra de um novo imóvel, carro ou viagem.

A partir de agora será necessário avaliar com cuidado o objetivo de investimento. Avaliar as metas, fazer os devidos cálculos e montar tantas carteiras de investimento quanto forem os objetivos.

O lado bom é que o mercado brasileiro também cresceu muito nos últimos anos.

Hoje já é possível montar carteiras e encontrar produtos para atender investidores de qualquer valor. Os produtos que até poucos anos estavam disponíveis apenas para clientes com alguns milhões de reais, hoje podem ser investidos com poucos milhares. Além disso, as técnicas de planejamento financeiro que, da mesma forma, só eram acessíveis aos clientes wealth, hoje estão à disposição de todos, graças ao uso da tecnologia.

Por fim, a máxima de que é preciso correr mais riscos para obter maiores retornos também entra em prática. Sai a renda fixa emitida pelo governo, entram créditos para empresas, fundos multimercados, imobiliários e ações. O ponto mais importante é que investir ficou um pouco mais difícil. Para se obter bons retornos vai ser necessário escolher bons investimentos e, mais do que isso, saber a hora de sair deles. Portanto, se torna imprescindível o acompanhamento profissional, seja de consultores, gestores ou planejadores financeiros independentes, ou seja, sem vínculo com instituições financeiras.

Mas o futuro é promissor.

O caminho que vem sendo construído para o crescimento da economia brasileira é forte e consistente e, soma-se a isso a infinidade de oportunidades num país como o Brasil. O caminho não é fácil e não será rápido, mas estamos mais encaminhados do que nunca.

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