A boa análise de volta

  • 27/05/2014
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Luiz Carlos Mendonça de Barros

Luiz Carlos Mendonça de Barros – A boa análise de volta

Depois de algumas colunas em que procurei refletir sobre temas econômicos pontuais volto hoje minha atenção para a conjuntura econômica neste mês de maio. Em um mundo em que as principais economias caminham de mãos dadas, em função principalmente das operações de arbitragem dos agentes financeiros, o analista tem que manter sua atenção em três grandes blocos: Estados Unidos, Europa e China. As outras economias são figurantes e respondem aos movimentos que ocorrem nestas três grandes forças do mundo globalizado dos últimos anos.

A este fenômeno de sincronização de expectativas é que nós analistas profissionais chamamos de arbitragem. Explicando melhor: a cada informação relevante no centro econômico seguem-se movimentos de mercado na periferia, respondendo a um soft construído pelos agentes financeiros, usando muita matemática.

Vejamos alguns destes movimentos que marcaram, nos últimos doze meses, o comportamento dos ativos brasileiros. Em maio de 2013 o Federal Reserve emitiu o primeiro sinal claro de que iria começar a reduzir os estímulos monetários da terapia pouco ortodoxa, de inspiração keynesiana, que ele usou no enfrentamento da crise nos Estados Unidos. Imediatamente iniciou-se o processo de arbitragem nos mercados financeiros do mundo que se seguiu ao aumento dos juros de prazo mais longo na maior economia do mundo.

Alinhamento entre BCE e Bundesbank levou juros europeus ao ponto mais baixo, elevando a atratividade do Brasil

Em cinco meses os juros dos títulos de dez anos do governo americano passaram de 1,5% ao ano para 3%. A reação normal e equilibrada a esta mudança deveria ter sido um ajuste nos mercados emergentes, principalmente nos países que dependem da entrada de capitais internacionais para o equilíbrio de suas economias. Juros mais elevados nos Estados Unidos certamente levariam a ajustes para cima nos juros externos de equilíbrio e, em função disto, a uma redução no crescimento econômico.

E foi realmente o que ocorreu entre maio e julho de 2013 no mundo emergente, com desvalorização das taxas de câmbio, ajustes nos juros futuros e nos preços de ações e, no nível mac
ro, uma correção para baixo nas expectativas de crescimento econômico. Este ajuste deveria ser suave e espaçado ao longo do tempo em função das mensagens claras enviadas pelo Fed de que os juros americanos seriam elevados apenas entre fins de 2015 e início de 2016.

Mas os especuladores desenvolveram uma teoria conspiratória segundo a qual a normalização dos juros na maior economia do mundo criaria um efeito semelhante ao de um grande aspirador de recursos financeiros, gerando uma crise de liquidez sem precedente nos países emergentes com déficits em conta corrente. Sem liquidez, os mercados financeiros locais entrariam em colapso e estaria criada uma terceira onda da crise financeira iniciada em 2008 com a quebra do banco Lehman Brothers. Com esta teoria ficou muito fácil especular contra o real e a Bovespa, pois o Brasil teria uma componente adicional na direção do cenário da catástrofe perfeita, com o governo Dilma sem credibilidade e cometendo erros seguidos na gestão da economia.

Felizmente os governos e, principalmente os Bancos Centrais dos países eleitos para o cenário da catástrofe perfeita agiram com rapidez e correção. O BC brasileiro foi um dos mais ativos deste grupo pois, além dos aumentos dos juros, criou um sistema inteligente de prover liquidez no mercado de câmbio, evitando com isto que os especuladores aproveitassem o pânico para ganhar a guerra. Os ânimos se acalmaram no trimestre final de 2013 na medida em que o discurso do Fed de que os ajustes nos juros só viriam muito à frente e as ações oficiais nos países do cenário de catástrofe perfeita serviram como amortecedor da crise.

Mas no início de 2014, aproveitando a pouca experiência da nova presidente do Fed em tourear os políticos do Congresso americano, os defensores do efeito aspirador nos mercados financeiros voltaram à tona. Os juros de dez anos dos títulos do governo americano viveram um novo pico de alta e os mercados emergentes novamente sofreram com o pessimismo.

Mas, como disse há muito tempo um experiente político que “não se pode enganar a todos o tempo todo”, a onda especulativa em março chegou mais como uma última marola no mundo emergente. Além disto um novo ventilador de dinheiro – que funciona no sentido inverso do aspirador – pode estar sendo acionado na próxima reunião do Banco Central europeu, anulando pelo menos em parte o fim do “Quantitative Easing” nos Estados Unidos.

Em uma mudança de 180 graus em sua posição, o Bundesbank – Banco Central da Alemanha – passou a apoiar um novo relaxamento monetário em uma região com um PIB do tamanho dos Estados Unidos. Com este inesperado alinhamento entre o BCE e o Bundesbank os juros europeus estão em seu ponto mais baixo da história, forçando o investidor deste mercado a buscar aplicações com juros reais mais elevados em países como Brasil.

Com este cenário mais racional, pelo menos nos próximos meses, deveremos ter uma estabilidade maior no mundo emergente. No caso do Brasil esta estabilidade estará influenciada pelas novas pesquisas eleitorais que vão ocorrer nas próximas semanas.

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Luiz Carlos Mendonça de Barros – A boa análise de volta por Luiz Carlos Mendonça de Barros | Valor Econômico – 27.05.2014

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